ISMAEL GUISER ENTREVISTA MARCELO CIRINO e Dança de Rua do Brasil

Entrevista cedida pelo Jornal Dança Brasil, edição de outubro de 2001 - página 11.


Dança Brasil entrevista o grande pioneiro da dança de rua neste país e tem a sua Cia. Dança de Rua do Brasil.

- -Entrevista- -

D.B.: - Começamos a entrevista perguntando já que sabemos que o seu início foi estudando ballet clássico, o que fez que houvesse este câmbio nesta nova procura???
M.C. - Não foi bem assim, eu comecei dançando em praças públicas, estacionamentos e houve época em que imitei Michael Jackson; foi quando eu ganhei um concurso de break dance, e fui convidado pelo ballet Valderez de Santos, para frequentar aulas de ballet e jazz. Frequentei a Escola Valderez e fui para a Escola Municipal de Santos. Esta experiência me deu uma base sólida para poder colocar no palco coreografias com alinhamentos e movimentação que a dança tinha me proporcionado.


D.B.: - Você é considerado o pai do "street dance" no Brasil, nos conte do seu trabalho diário com grandes grupos muitas vezes com homens sem experiência anterior que você terá que formar???
M.C. - O Projeto Nacional Dança de Rua possui hoje 1.800 adeptos, 85% deles são mulheres. Mas, o grupo profissional é todo integrado por homens e lidar com eles não é fácil. Muitos vindos das periferias e famílias carentes.
Para poder participar do grupo eles precisam compartilhar da filosofia de nosso trabalho, baseado numa grande disciplina o que marcará para sempre sua forma de viver já que disciplina se adquire e os que assim não o fizerem não poderão participar porque tem muitos esperando uma vaga, aguardando uma oportunidade. Há sempre um diálogo para que eles saibam o que é certo ou errado, até tudo continuar o curso normal.


D.B.
: - Deduzimos então que quando um integrante entra na Cia. você ensina ele a se comportar, a comer, a se vestir, e assim por diante??? O que faz com que eles vejam em você uma espécie de guru??? É assim que eles vêem você???

MC - Certamente as coisas vão acontecendo; quando começam a ensaiar não sabem se expressar ou conjugar as palavras, não tem postura, nas refeições é preciso vigiar a quantidade e maneira de comer, é claro que não é a maioria. Por isso, minha idéia é preparar eles para a vida e não somente para a dança.


D.B.
: - Você acha, como já ouvi muitas vezes que a dança de rua está estagnada, e não está encontrando novos caminhos; se bem que eu noto nos seus trabalhos eterna procura???

MC - Este fato se deve a que alguns líderes de grupos, não possuem referenciais; eles vem de pequenas cidades do interior, onde veem muito pouco. Não sabem que a cada dia surgem novas propostas musicais e o movimento Hip Hop no mundo está cada vez maior. É preciso pesquisar.


D.B.: - Todos sabemos que você agora é uma figura nacional, participando como professor e coreógrafo dos maiores festivais do país, estando grande parte do seu tempo fora de Santos. De que forma você resolve o problema do Projeto e da Cia.???
MC - É muito difícil quando estou ausente, porque as pessoas exigem a minha presença, mas como não posso estar em vários lugares ao mesmo tempo, tenho no grupo profissionais muito responsáveis que cuidam do grupo ensaiando. Mas, minhas ausencias são sempre nos finais de semana, não atrapalhando muito.


D.B.
: - Vejo que entre os seus assistentes você cria líderes de outros grupos como FAÍSCA e FUMAÇA, RICARDO ANDRADE e outros que já possuem seus próprios grupos. Onde você deixa sua marca registrada.

MC - Pra mim isto é um orgulho, porque onde queira que você vá, terá alguém que já participou do meu trabalho; ele começou na orla santista e hoje está espalhado por todo Brasil. Isto é consequência de um trabalho feito com muito amor.


D.B.: - O que me diz de trabalhos que não parecem com os seus. Isto te incentiva a continuar criando???
MC - Respeito todas as novidades e gostaria que a cada dia aparecessem mais para que nosso estilo saia da mesmice procurando novos rumos.


D.B.: - Chegando ao final de sua entrevista, gostaria que desse uma mensagem para pessoas que gostariam de entrar no seu mundo do "street" e de fantasia.
MC - Estou notando a cada dia que passa que há uma falta muito grande de humildade que é a grande inimiga do aprendizado. Devem estudar, fazer cursos, se preparar e acreditar que a cada dia que passa falta muito por aprender.


ISMAEL GUISER - Maitre, Coreógrafo e colaborador do Jornal DANÇA BRASIL